Umas semanas atrás, quando o Tico pegou uns livros da estante e pediu para que eu os lesse, estava entre eles um livro em chinês, o do Pinoquio. Ele insistiu para que o lesse e não queria a desculpa de que mamãe não sabe ler chinês.
Geralmente quando lemos para as crianças um livro que não é na nossa língua nativa mostramos as figuras e vamos contando a estória do nosso jeito, na nossa língua. Só que no caso deste Pinoquio, as figuras eram tão mal elaboradas a ponto de não serem auto-descritivas. Por mais que tentasse não dava para continuar mantendo a narrativa original somente baseada nas figuras. Afinal o Pinoquio é uma estória infantil clássica e não queria distorcê-la tanto assim. A primeira figura do livro já mostra o Pinoquio de nariz comprido e sem jeito de boneco de madeira, dá pra entender ? Era como se tivesse de contar a estória de trás para frente ! Virei a primeira página e falei:
“- Esse livro está em chinês e a mamãe não sabe ler. Tem de pedir do papai, tá bom ?”
Depois de muito choramingar o Tico desistiu. Pegou o livro e me deixou na cama com o Teco. E parece que enquanto eu colocava o Teco para dormir o pai leu o Pinoquio para ele. Depois de um tempo lá vem ele de novo para dormir, ainda com o livro na mão. Quieto, põe o livro de lado e diz que quer dormir, finalmente.
No dia seguinte, já pronto para ir a creche, saindo da porta ele se volta e fala:
“- Chinezi, Tico quer chinezi!”
Tanto o pai quanto eu nos entre olhamos sem saber o que menino está falando, só preocupados que as crianças estão atrasadas. E lá vem o Tico saindo da porta do quarto com a cara de satisfeito e com o livro do Pinoquio debaixo do braço. “Chinezi” queria dizer chinês. É o livro em chinês que ele queria !
No carro pergunto:
“- Então o que o Tico queria era o livro em chinês do Pinoquio né?”
Apontando para a capa do livro onde está escrito Pinoquio em letras chinesas ele soletra devagar:
“- CHI-NE-NE-NE-ZZ!”
