Publicado por: rivermom | maio 19, 2010

O que se passa na Tailandia ?

E’ dificil contar os ultimos acontecimentos em Bangkok desde Março passado sem perder detalhes e quando a emoção tomar conta sei que vai dar um branco. Mas contar TUDO, daria um livro e não um diario.

Para encurtar, os red-shirts que lutam contra o atual governo da Tailandia mas tambem simpatizantes do ex-PM Thak(sin) tomaram o centro de Bangkok. Fizeram exigencias para a resignação imediata do PM, dissolução da casa, etc. O governo ofereceu uma contra-proposta que incluia dissolução em 5 meses e novas eleições em 2 meses. A proposta parecia ter dado efeito mas havia discordia entre os varios lideres do movimento anti-governo. Finalmente parece que o lider Thak deu a ultima palavra e a proposta do governo foi retaliada ou melhor, ignorada. Afinal ele fez de tudo para tentar criar o movimento para traze-lo de volta ao pais e se sentiu no minimo abandonado vendo algumas pessoas se simpatizando com a proposta do governo sem conseguir o que queria, “e eu, como fico ?”. Desde entāo o movimento ganhou força se extendendo para outras partes da capital. Violencia leva a violencia e hoje ja conta com um total de 36 mortos (em 16/05/10) em 2 meses e cada dia esse numero aumenta.

Desde que o movimento começou, as primeiras zonas dominadas foram a area de Siam, onde tanto eu como a maioria dos estrangeiros da capital, turistas e bancoquianos curtem as compras, os restaurantes e os cinemas, é a zona do lazer e das compras. Outra zona é a Silom/Sathorn/Saladaeng que é o centro financeiro. É onde se concentram bancos, embaixadas, esritorios de empresas privadas e tambem é onde esta o escritorio do meu marido. Nossa casa não é muito longe dai tambem.

Militantes do redshirt, ainda alegremente circulavam pela cidade em março

Foi em inicios de abril que saimos da Tailandia de ferias. Abril é o Ano Novo aqui (Songkran) e tambem o mes mais quente onde a temperatura passa dos 40C todos os dias. Escolas entram em recesso por 3 meses e preferimos passar esse tempo em lugares com temperaturas mais amenas de 20C. Desta vez a expectativa foi que durante nossa ausencia o movimento anti-governo se dispersasse, 2-3 semanas seriam o suficiente ? Acreditamos que sim, mas eu deveria ter calculado que um grupo que ordena os companheiros a coletarem sangue, seja humano ou animal e espalhar na porta do parlamento e na casa do PM como forma de protesto, sem levar em conta o perigo de agulhas contaminadas, sangue portando diferentes doenças e a etica são pessoas que não agem com razão. Semanas antes do episodio do sangue um homem havia sido preso ao espalhar o proprio excremento na porta da casa do PM. Alguem ja ouviu coisa parecida ? E o imprevisto aconteceu.

Foi durante a viagem que ficamos sabendo de noticias de bombas e atentados acontecendo bem ali, pertinho do escritorio do meu marido em Saladaeng. A rua estava cheia de policiais em prontidão para evitar mais violencia e todos os dias meu marido ficava informado do acontecimentos pelo telefone com os funcionarios. Acabamos extendendo nossa estadia no exterior por 1 semana mas a crise continuava, se não para a pior.

A noticia que repercutiu nessa epoca e que fez o mundo saber do que se passava da capital, conhecida como a “capital do sorriso”, foi a que os redshirts invadiram o hospital universitario. Alegaram que haviam visto atiradores profissionais escondidos no predio que dava de frente  para onde os redshirts estavam concentrados. O chefe do hospital negou as acusações que não foram ouvidas e muitos dos protestantes invadiram os corredores do hospital com bastões e armas, assustando os funcionarios e os pacientes. Digam-me, quem, com sanidade mental invade um hospital grande como o do Chula? A Cruz Vermelha funciona la dentro tambem.

Chegamos depois de 1 mes. Eu estava torcendo para que adiassem, mas meu marido tinha reunião marcada para o dia seguinte. Qual não foi nossa surpresa ao passarmos de carro pelo Lumpini Park ? Ha 1 mes atras nos deparamos com um grupo de redshirts na mesma esquina, ainda com um sorriso no rosto e viajando em pe na carroceria de uma caminhoneta. Agora o lugar estava cercado com barricadas feitas de pneus e bambus. Se haviam redshirts, everiam estar atras dos pneus. Parecia mais uma cena de algum filme de “fim de mundo”, um “Mad Max” real. Bandeiras vermelhas marcavam o territorio dos redshirts. Do outro lado da rua policiais guardavam a frente do hotel Dusit Thani.

Chegando ao predio onde iriamos fazer nossa primeira refeição na cidade a realidade veio aos nossos olhos. O estacionamento do Chaan Isara na Rama 4 tinha se transformado num acampamento para abrigar os soldados que patrulham a zona de Silom. Se a cena na frente do parque tinha me chocado, a cena no estacionamento foi mais forte. Os soldados, ainda jovens rapazes de 20 anos dividiam o chão sujo e duro do estacionamento que lhes servia de cama. O verão fazia o calor ficar ainda mais insuportavel, mesmo as 7 da noite. O ar era intrepido e so uns poucos ventiladores ajudavam a fazer o ar circular. Alguns tomavam banho ao lado de um tanque de agua improvisado no meio do estacionamento, outros dormiam (ou tentavam), um radio a pilha tocava uma musica quase indecifravel ao fundo. Ate me senti mal pois estavamos ali para comer a uns poucos andares acima deles mas com ar-condicionado e sentados confortavelmente e quando passamos por eles mal pude olhar nos olhos deles porque a culpa que sentia era maior. Para me conformar lembrei das conversas que tive com alguns amigos que fizeram treinamento no exercito em Manaus. Eles eram treinados a dormir na floresta for 30 dias, aprendiam a fazer cama com folhas e galhos, tinham ate de comer aquela minhoquinha branca de dentro do coco por proteina e tinha de ser vivinha ! “Aqueles meninos tambem tinham sido treinados e aquilo tudo seria só fichinha para eles”, é o que eu tentei colocar na minha cabeça antes de subir as escadas para o restaurante.

Passou-se assim 1 semana. Tensão em certas zonas mas ainda nada de confrontos corpo-a-corpo, as pessoas iam ao trabalho, nossas criancas iam a escola, o dia-a-dia continuava. Pontos isolados permaneciam, mas pude passar no supermercado, na loja de departamento, a Saladaeng estava livre, com a excessão de certos soldados fazendo patrulha. Nesses dias quentes dava pena de ve-los com aquele uniforme pesado, imagine o calor dentro daquele aparato todo.

Logo chegaram dois irmaos do meu marido dos EUA e os levamos diretamente do aeroporto para Hua Hin. Mesmo somente a menos de 3 horas de carro da capital o clima era todo diferente. Não vimos nenhum militante redshirt, nenhuma bandeira indicando a preferencia politica do povo local, nem comentarios dos acontecimentos em Bangkok.

Voltamos para Bangkok e os irmãos ainda puderam passar no MBK, um mall no centro de Siam popular entre turistas. Ate arriscamos ir a Silom a noite para comer com a familia toda. Tive a oportunidade de passar pela estação de trem onde soldados guardavam os acessos mas tudo estava traquilo. Os usuais vendedores ambulantes de Thaniya e Patpong  tinham suas vendinhas de DVDs falsos e outros ainda ofereciam os DVDs X para os homens do nosso grupo. Soldados sentados em certos pontos da calçada nos traziam de volta a realidade, mas mesmo assim eles sorriam para os meu meninos quando os viam passar curiosos na frente deles.

No dia 13 de maio estavamos so eu e as crianças a noite em casa. Meu marido tinha viajado a serviço e os irmãos pegaram voo de volta no mesmo dia. As crianças estavam na escola e o dia inteiro, mesmo de casa so se ouviam tiros ou estampidos vindos la de longe, Silom/Saladaeng ou Lumpini. Quando a tarde já caia, ouvi uma forte explosão e corri para a varanda. Logo depois um clarão seguido de um barulho ainda maior ! Parecia ter vindo se Saladaeng. Ligo para o celular de alguem do escritorio mas parece estar tudo bem la. Durante a noite, tiros e estampidos se tornam mais intensos mas com as janelas fechadas e o condicionador-de-ar ligado conseguimos dormir tranquilos.

No dia seguinte fico na duvida mas acabo mandando as crianças para a escola, afinal é perto de casa. Logo depois de deixa-los começo a sentir um clima diferente. Uma fumaça preta pode ser vista da varanda subindo no ceu la longe. Soube depois que os redshirts estavam queimando pneus velhos na rua. Nao parece ser de Saladaeng nem de Lumpini, mas de Rama 4, em frente ao predio da Embaixada Brasileira ! Logo a Sathorn, na esquina de casa é bloqueada pela policia. Sirenes de ambulancia são constantes. Ao meio-dia recebo telefonema da escola para pegar as crianças. E eu que queria ir fazer compras para caso de emergência ! Recebo telefonema do escritorio do meu marido me avisando para evitar sair de casa. Fui so pegar as crianças mas fiquei sem tempo de fazer o estoque de comida. Escritorios, bancos e tudo deve parar de funcionar na area pois as 3 horas o trem iria parar e os acessos a area incluindo Sathron, Silom/Saladaeng ficaram completamente bloqueado. A noite ouvi noticias de que os redshirts estavam avançando na Sathorn, perto a embaixada da Australia e isso significaria se aproximando mais da nossa casa !

O dia foi tenso mas tentava não mostrar ansiedade na frente das crianças. O meu iPhone me permite ficar atualizada com noticias fresquinhas pelo twitter sem ter de ficar na frente do computador ou da TV. Levei-os para brincar na piscina pois o calor assolava a todos e ficar em casa queimando o condicionador-de-ar não adiantava muito. Desta fez agradeço a mobilidade que tecnologia nos permite ter !

Meu marido chegou da viagem a noite e combinamos um plano de fuga caso a situação piorasse. O sabado passou tranquilo. Boatos de reconciliação ou de avanço das tropas se alternam nos meios de comunicação. So sei que é confuso e ninguem sabe o que vai acontecer mas sempre esperamos pelo melhor. Domingo o fogo na Rama 4 em frente a Embaixada Brasileira so piorava. Minha preocupação agora era com o toxico que vem na fumaça preta de pneu queimado, o cheiro deve ser insuportavel nas proximidades. Um funcionario da escola das crianças nos telefona dizendo que o inicio do ano letivo, prevista para o dia seguinte, na segunda foi adiado para a quinta-feira. Claro, nem precisava nos avisar e tambem duvido que haja retorno ate o final do mes !

Pneus em fogo na Rama 4, em frente a Embaixada !

Os boatos de que as tropas iriam avançar começam a parecer mais reais e era hora de colocar nosso plano A em pratica, nos mudarmos para a casa do meu sogro do outro lado do rio.

Enquanto fazia a mala o plano A virou B. Não iriamos somente passar a noite la como tambem pegar avião na segunda para Isan e de la, pegar outro avião para Puket. Poucas horas depois, plano C pareceu mais viavel. Pegar os passaportes pois talvez depois de Puket nosso destino seria Hong Kong ! E a mala so crescendo de tamanho… O que no inicio era uma mala pequena, acabou virando uma mala grande de 25Kg ! Roupas para 1 semana, material de estudo para as crianças, alguns brinquedos (uma quantidade enorme de carrinhos !), 2 computadores e haja coisa para levar… Nossa vida de refugiado começou.

O outro lado do rio parecia outra Bangkok. O comercio funcionava normalmente e estavamos longe dos barulhos tambem. Mas eu continuava com o meu twitter na mão.

Na segunda seguimos para o aeroporto. Passamos na expressway em Din Daeng, um dos pontos mais violentos com fumaça subindo ate a parte elevada da expressway. O hotel que fica proximo a via, o Century Park ja havia sido esvaziado ha uns dias atras. Essa foi a nossa ultima lembrança de Bangkok antes de seguirmos para o aeroporto.

Se os redshirts ou o movimento anti-governo lutasse puramente contra a elite, contra o sistema, eles talvez tivessem a simpatia de muitos residentes, inclusive a minha. Mas não é isso que os sustenta. É o que vem atras deles que faz o movimento todo virar uma luta so de interesses: salvar a fortuna confiscada do ex-PM Thak, traze-lo de volta do exilio e transforma-lo em chefe-de-estado. Todos nos sabemos a consequencia disso, uma ditadura e aclamada pelo povo ! Mas os militantes são pessoas humildes que acreditam no homem que lhes ofereceu algumas migalhas em troca de votos. Que eliminou inimigos com sangue frio, que calculou todos os passos para se tornar num dos homens mais poderosos no Sudoeste Asiatico. Muitos o comparam com o Berlusconi mas de longe mais obcecado pelo poder.

E não é so isso. Se pensavamos que haviam 2 grupo envolvidos, o governo e os redshirts, existe na verdade mais um grupo, os sanguessugas do black-shirts ! Claro, existem facções tanto no grupo do governo quanto no grupo dos redshirts. Mas esses blackshirts que pouco aparecem nas noticias são os extremistas, comunistas, que com o intuito de ajudar o ex-PM Thak a formar a república Thak, o que eles querem mesmo é derrubar a monarquia. Thak aceitou a juda deles para derrubar o governo e pensa que depois pode se livrar deles de um jeito ou de outro. Os blackshirts ajudam o Thak mas depois deverão se livrar dele e formar o socialismo. Loucura ? Vamos ver. [Note que este ponto de vista não é meu, mas de um conhecedor profundo sobre esses assuntos]

Hoje, dia 19 de maio vai ficar na estoria da Tailandia. O exército começou a avançar nos redshirts. Enquanto termino de escrever este blog, o twitter não pára de ser atualizado. O numero de mortes vai ultrapassar de longe o que aconteceu no “Black May” em 1992 quando 52 mortes foram oficialmente declaradas mas a situação chegou a um ponto em que nao se podia mais esperar por negociações. Os redshirts vinham destruindo predios, casas e estabelecimentos comerciais recentemente deixando milhares de civis em situação de desespero.

Coloquei as crianças vendo um DVD do “Curious George” no quarto do nosso hotel em Khon Kaen. Meu marido foi na empresa. Khon Kaen é em Isan, berço dos redshirts. Começo a ouvir barulhos de fogos-de-artificio daqui do hotel tambem.

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Responses

  1. Ai, amiga! O que posso dizer?
    Bjs e fique vc e sua familia com Deus! e em segurança!


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