Publicado por: rivermom | janeiro 24, 2011

Nossa “salada de Babel”

Quem já veio aqui em casa e passou 5 minutos com a nossa familia de 4 geralmente nos faz a mesma pergunta: “Que lingua voces falam entre sí?”.

A confusão de idiomas já deixou gente, não acostumada a ouvir mais de uma lingua ao mesmo tempo, com tontura e dores de cabeça, como falou uma amiga tailandesa. Ela ficou perdida quando os meninos começaram uma briga por causa de um brinquedo, em “thai” e ai veio eu e o meu marido interferindo, cada um com uma lingua diferente mas direcionada aos meninos. Meu marido interferiu em cantonês (lingua falada em Hong Kong) e eu em português. E o pior, os meninos responderam em cada idioma, português e cantonês, dependendo para quem se dirigir, ao pai ou  a mãe, explicando o motivo da briga e argumentando quem estava com direito sobre o brinquedo e quem não. Ao mesmo tempo em que os dois meninos ainda disputavam entre si, em thai, a posse do brinquedo.

Logo depois dessa confusão toda nossa amiga tailandesa se retirou, disse que estava tonta e precisava tomar um remédio ! E ela não estava brincando,  olhos dela estava virados e nem sei como ela conseguiu dirigir o carro depois. Só depois de uns dias ela se desculpou, disse que não estava preparada pois ela sempre conversou em inglês com nossa familia, até com os meninos e de repente tudo virou e começou a rodar. Xii…

Essa salada de idiomas dá uma reviravolta mesmo quando conversamos os 4 juntos e isso é porque não temos um idioma em comum em que nós 4 nos comuniquemos. Nossos idiomas falados aqui em casa são contados de 2 em 2:

– eu com os meninos em português

– o pai com os meninos em cantonês

– os meninos entre sí em thai

– pai e mãe entre sí em inglês

Na verdade isso nunca nos incomodou. O fato de não termos uma lingua em comum não foi planejado, evoluiu naturalmente e não diminuiu tão pouco, nossas chances de comunicação.

Mesmo antes de o nosso primeiro filho nascer foi natural eu falar em português com o pequeno embrião que se formava dentro da minha barriga. E porque não ? Com o meu marido sempre nos falamos em inglês mas com o embrião eu podia falar em qualquer lingua e meu marido ouvia mas não se incomodava. Além do que, ele tambem falava com a minha barriga em cantonês. Ele falava com a minha barriga e não comigo. Se eu quisesse saber o que ele falou pra minha barriga eu perguntava ou ele mesmo falava sem que eu perguntar e assim foi. O fato é que comunicação é de no minimo de 2 em 2, 1 para falar e 1 para escutar só já basta.

O menino nasceu e continuamos falando agora com o bebe do mesmo jeito, cada um, português e cantonês. Ai vieram os avós de cada lado. Os avós paternos, pais do meu marido, falando em cantonês  com o recém-nascido. Já os meus pais vieram do Brasil mas como são japoneses acrescentaram mais um idioma a nossa salada, o japonês.

Um ano depois do primeiro filho veio o segundo filho e mais tarde os irmãos começaram a falar em thai entre si. Primeiro por conta da babá que era tailandesa e depois porque começaram a frequentar uma escolinha tailandesa.

Podiamos sim, ter mudado nessa época e passado a adotar o inglês como o idioma comum aqui em casa mas não víamos a necessidade. Tanto eu como meu marido crescemos em familias já bi-lingues e somos de certa forma, fluentes na lingua materna dos nossos pais, assim como na nossa propria.

Meu marido, filho de pais chinêses de Hong Kong nasceu e foi parcialmente educado nos EUA falando tanto o inglês quanto o cantonês em casa. Eu, nascida e educada no Brasil mas filha de pais japonêses, tambem cresci cercada pelas 2 linguas. Nos casamos e nosso idioma comum virou o inglês mas tinhamos já na bagagem nossas origens que queriamos passar para nossos filhos e conheciamos as vantagens de sermos bi-lingues.

Nessa mistura de idiomas deixamos o inglês de fora, pelo menos no que se refere as crianças, e várias pessoas nos perguntam o por quê. Mas sabe aquela piada que fazem de americano e vai mais ou menos assim,

“Se voce fala 4 linguas voce é poliglota,

se voce fala 3 linguas voce é trilingue,

se voce fala 2 linguas voce é bilingue,

se voce so fala 1 lingua voce é americano

O inglês é uma lingua universal e assim como há milhões de nativos, existem outros milhões de não nativos que falam inglês com os mais variados sotaques. Inglês de americano, de australiano, ou mesmo de indiano são diferentes no sotaque mas tudo é inglês. Mesmo o meu inglês com pronuncia tupininquim se passa por inglês (tsk, tsk).

O inglês, sendo assim tão difundido, vai acabar fazendo parte da vida das crianças um dia. Como elas convivem de certa forma com o inglês aqui em casa no dia-a-dia ouvindo o pai que é nativo falar (o meu não conta!), isso vai acabar treinando o ouvido das crianças para os sons do inglês quando eles precisarem. O que percebemos também entre muitos amigos e seus filhos que moram no estrangeiro é que uma vez que as crianças se apegam ao inglês eles dificilmente falarão a outra lingua. O inglês é mais prático, todos entendem e é o “cool”.

Outro argumento que tambem veio talvez de nossas experiências crescendo em familias bi-lingues, é de que ser exposto a sons dos mais variados possiveis desde cedo ajude no futuro já que as crianças terão um ouvido mais flexivel. Portanto, se temos a chance de expor as crianças já em casa e desde cedo a idiomas diferentes, porque não aproveitar essa chance unica que nossa familia proporciona ? E é de graça, como meu marido ponderou, depois de ler em jornais que o numero de familias nos EUA a procura de babás chinesas estava aumentando porque queriam que os filhos aprendessem a falar mandarim ! Ta certo, até eu queria uma babá chinesa para ensinar mandarim para mim e para minhas crianças (vide que o mandarim e o cantonês são diferentes !). Mas no nosso caso, incluir o mandarim não pareceu muito obvio e até porque ofuscaria o cantonês, sendo ambos chinêses.

E foi assim que nossa salada virou uma salada de “minority languages” uma vez que os idomas que usamos aqui em casa não são os mais populares: o cantonês perde para o mandarim e o português perde para o espanhol. Para completar a salada de “minority languages” vem o japonês que é falado no Japão somente e o tailandês que é restrito aos tailandeses…

Uma vez viajamos para o Japão, além de nós 4 os avós de cada lado, pais do meu marido e os meus pais. Eramos 8 sentados numa mesa de um restaurante, decidindo sobre o que pedir. Viramos e reviramos o menu e os 6 adultos conversando ao mesmo tempo, era uma feira, uma verdadeira “torre de babel”.

Meu marido com os pais em cantonês explicando o menu. Meu marido me perguntando, em inglês o que eu iria pedir para as crianças. Minha mãe me falando em português que ela poderia pedir peixe e dividir com o Niko, já que ele sempre gostou de peixe. Minha sogra me alertando, em inglês, que o Rafa que estava sentado do meu lado tinha deixado cair alguma coisa. E eu falando para o Rafa, em português, para ele ficar calmo que a sopa de macarrão dele já viria. E o Niko, gritando com o Rafa em tailandês pois este tinha deixado cair a colher dele no chão !

Da pra imaginar o caos ? Português, cantonês, tailandês, inglês e japonês, tudo rolando na mesa ao mesmo tempo ?

Depois que a garçonete pegou os pedidos, antes de ir embora ela virou mais uma vez e me perguntou:

“Qual a relação de voces, afinal?”

Aparentemente éramos como qualquer familia, os pais com as crianças e os avós maternos e  paternos em férias. Mas a pergunta da garçonete veio porque talvez ela ficou desnorteada, uma familia sim, mas todos falando linguas tão diferentes!

Hoje as crianças estão maiores e as necessidades de comunicação só aumentando. Imagina quando chegarem a adolecencia e os assuntos ficarem mais delicados ? Ai sim, talvez teremos de nos sentar os 4, ou pelo menos 3, com uma das crianças cara-a-cara com os pais e ter um idioma em comum mas até lá acho que iremos continuar com essa salada de idomas aqui em casa.

Hoje, se me perguntam se a falta de um idioma comum nos restringe de alguma coisa só posso falar que não. Acabamos por ter de falar mais e a ouvir mais. Se eu falo uma coisa importante para as crianças em português e quero ter certeza de que meu marido tambem entendeu a mensagem, repito em inglês pra ele. Se os meninos me falam uma coisa em português e acho que o meu marido deve saber tambem eu falo para as crianças repetirem para o pai (e eles vão repetir em cantonês). E só temos a ganhar com tudo isso pois eu acabei aprendendo, pelo menos de ouvido, o cantonês. Hoje entendo mais do que meus sogros falam com o meu marido em cantonês, ate coisas que eu preferiria não saber (tsk, tsk). Tenho certeza que meu marido tambem, hoje já entende muito mais o português do que há 5 anos atrás.

Se há uma desvantagem que reconheço, não é nem a falta de um idioma comum, ao contrário,  é a falta de uma “lingua só dos adultos” ou aquela lingua secreta que as crianças não entendam…

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