Publicado por: rivermom | fevereiro 12, 2011

Macau, nosso “primo” distante

Nascida de pais orientais e criada no Brasil, as culturas oriental e ocidental sempre estiveram mescladas na minha vida. Como certos costumes que tivemos em casa, até hoje não sei se eram costumes brasileiros ou japoneses. Por exemplo, quando caiu o primeiro dente-de-leite do Niko falei pra ele que tinhamos de jogá-lo no telhado de casa que é o que fazíamos em casa mas fiquei sem saber se esse era um costume que minha mãe aprendeu no Brasil ou se ela trouxe do Japão. Até hoje ainda tenho essa dúvida, mas deixa pra lá, acabei que deixando o dentinho numa caixinha dentro da minha gaveta pois como moramos num prédio de 38 andares, não tem como alcançarmos o telhado !

Foram esses e muitos outros costumes, além de palavras de vocabulário do nosso dia-a-dia e o mais importante, a culinária que resultaram no que sou hoje e que agora passo aos meus filhos. Enriquecemos nossa cultura com a cultura chinesa do meu marido e a cultura do país onde emoramos, Tailândia.

Lembro-me de uma amiga que veio brincar comigo em casa e minha mãe estava na cozinha hidratando algas seca.  Essa amiga pulou de susto ao ver aquela coisa estranha, preta, parecendo papel (ou bicho?) amolecido em água e o que a chocou, é que aquilo era parte da nossa janta ! Bom, essa amiga não ficou para a janta, claro, rsss.

Morávamos numa cidade onde a densidade de orientais era bem menor comparada a São Paulo ou Curitiba por isso era comum ter essa reação das pessoas. Meu pai tomava sakê com os amigos sempre que alguém trazia uma garrafa pra ele do Japão, meus pais comiam de pauzinho, falavam aquela língua estranha, muitas vezes misturada com o português que os meus amigos achavam engraçado. Minha avó falava “geradeira” mas chorava assistindo a novela das 7 como qualquer outra dona-de-casa. Éramos um pouco do oriente no meio do ocidente, estranho ?

Depois que vim morar na Ásia para mim foi muito curioso ver o oposto, o ocidente no oriente, ainda mais português, isso mesmo. Como está na história, o Brasil foi colônia de Portugal assim como muitos outros lugares na Ásia. Esses lugares, para nós tão distantes, são nossos “primos” pois recebemos as mesmas heranças culturais trazidas pelos colonizadores Portugueses.

Quão não foi minha surpresa ao visitar Málaca na Malásia e conversar com um octagenário chamado Pedro ? Isso mesmo, o velhinho se chamava Pedro mas estava vestindo um “sarongue”. O sobrenome ? Esquecí de perguntar, mas poderia ter sido Cintra ou Alcântra ? E assim como ele, tinha o Manuel, o João, o Sebastião da esquina…  Conversando um pouco com ele, falei que vim do Brasil e que tínhamos sido colonizados pelos mesmos “patrões”.  Ele conversava um inglês básico e nossa conversa não durou muito embora ele dissesse que quando era menino só falava português. Um outro amigo brasileiro teve mais sorte que eu, quando mencionou que foi parar em Málaca vindo de avião o Pedro respondeu, “Ah, navio que avoa !“, isso mesmo, ele falou em português??? Fiquei pensando que esta talvez seria a maneira como  Camões descreveria “avião” nos Lusíadas.

Se o português estivesse vivo ainda em Málaca, este seria o português congelado no tempo, de 500-600 anos atrás e foi como uma viagem no tempo conversar com o Pedro e ouvir dele outras palavras em português que ele conhecia, um português que talvez já nem mais exista em Portugal.

Assim como existe o Pedro,  há outros descendentes dos Portugueses na Ásia que mantem na sua língua nativa traços do português dos colonizadores, assim também como a cultura, as tradições, culinária e religião.

Em Macau, como a autonomia dos portugueses durou até mais recentemente a presença da língua é muito mais forte. A cozinha de Macau é basicamente a cozinha portuguesa adaptada. Para mim é simplesmente uma cidade fascinante. Cada esquina, cada quarteirão, cada rua, cada travessa, não páro de compará-la a certas cidades históricas do Brasil como Tiradentes em Minas por exemplo. As sacadas coloniais, as pracinhas, os bebedouros antigos, as ruas de paralelepípedos. Cheiro de bacalhau, de caquinha de caranguejo… Acho que só faltou mesmo a música, os sons. Mas como Macau é Ásia, não falta o sabor oriental em cada coisa e me divirto lendo as placas escritas em português. Para os meus pais que visitaram Macau ano passado, o mais divertido foi ler os nomes das ruas escrito em chinês pois como eles leem japonês e os caracteres são semelhantes com o do chinês eles viram que a fonética era bem próxima de como se pronunciaria em português.

Rua de São Paulo

Carpintaria

Correios

macau-nome-de-rua

Ôpa, falou em pagode ? Onde ?

Feliz Natal ! Xìe Xìe !

Os portugueses de Macau são para mim o maior exemplo de como culturas diferentes podem se mesclar harmonicamente, preservando os charmes de cada uma. E foi com um prazer imenso que lí este artigo no jornal outro dia:

“Uma mistura bem distinta que sobrevive num canto da China”

(Distinct Mix Holds On in a Corner of China é o título original em Inglês)

O artigo fala que em Macau os imigrantes e seus descendentes formaram um dialeto próprio, uma mistura de português arcaico de Portugal, malaio da Malásia, cantonês de Hong Kong e até do tailandês ? Essa língua chama-se o Patuá macanense e está quase em extinção mas quem sabe nós a ajudemos sobreviver por mais um pouco. Falo assim porque fiquei com uma curiosidade imensa de ouvir o Patuá e me atreveria a prender também. Na verdade aquí em casa temos o nosso “Patuá” próprio que vem da nossa mistura de português, cantonês, tailandês, japonês e inglês.

E para completar nossa homenagem a Macau, vou falar de uma concidência muito legal.

Quando o Niko nasceu e os avós paternos resolveram que queriam dar um nome chinês a ele o avô consultou um astrólogo chinês para decidir que caracter ou diagrama chinês o nome deveria ter. E não é que o caracter escolhido se referencia a Macau ? Para desagrado da minha sogrinha que  ainda mesmo depois de 6 anos insiste que deveriamos trocar o nome.  Para muitos da geração dela tudo que vinha de Macau era profano, era a terra dos boêmios, do jogo, das prostitutas, uma repugnância para as donzelas da sociedade de Hong Kong e ela acha esse nome impróprio para o neto, o primeiro ainda.

Como nem meu sogro nem meu marido concordaram com ela o nome dele ficou como nossa homenagem a diversidade cultural de Macau.


 

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